“Sou cristã, educadora e alvo do Boko Haram”, diz refugiada da Nigéria no Brasil

Publicado por iRadio em Mundo

Publicado em 12 de abril, 2015 | Nenhum Comentário

O texto abaixo foi retirado em sua íntegra do site Último Segundo, do portal iG.

Amanda Campos

A professora Nkechinyere Johnatan deixou os filhos e o marido e veio sozinha para São Paulo; ações violentas do grupo terrorista, que há um ano sequestrou mais de 200 meninas, faz aumentar o número de refugiados no Brasil

Uma das atividades favoritas da nigeriana Nkechinyere Johnatan, de 35 anos, é ler. Dos gêneros que a professora mais gosta, os romances policiais estão no topo da lista. Mas nem todo o seu conhecimento literário foi capaz de prepará-la para enfrentar uma situação digna de best seller: na mira dos terroristas do Boko Haram, a africana foi obrigada a fugir da Nigéria com os quatro filhos e o marido rumo a Cotonou, na vizinha República de Benin. Depois de se certificar que eles estariam salvos, ela seguiu sozinha para o Brasil.

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Assim como Nkechinyere, outros 1.116 nigerianos entraram com pedido de refúgio no Brasil de janeiro a outubro de 2014 (dado mais recente), de acordo com o Acnur, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Até setembro do ano passado, outros 1.150 casos como esse ainda estavam em tramitação no Conare, o Comitê Nacional para os Refugiados, o que faz da Nigéria o segundo país entre os que entraram com mais pedidos, atrás apenas do Senegal, que contabiliza 2.164 solicitações. Gana ocupa o terceiro lugar com 1.090 pedidos.

“O Boko Haram havia atacado e sequestrado vários moradores da vila onde eu morava, então não quis arriscar. Sou mulher, cristã e professora universitária. Ou, para resumir, alvo dos terroristas”, diz Nkechinyere durante conversa com o iG.

Nkechinyere explica que não pôde trazer toda a família para a América do Sul por problemas financeiros, mas que tem trabalhado em uma das equipes de limpeza de um shopping da capital paulista e juntado dinheiro para ter novamente os parentes ao seu lado. ”Peguei o primeiro emprego que apareceu. Mas não vou ficar nele para sempre. Sinto falta de ensinar”, afirma.

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Foi também pensando em juntar dinheiro que o nigeriano Kennith Ugw, de 28 anos, deixou de procurar vagas apenas como professor de inglês – cargo que exercia em seu país de origem – e acabou empregado em uma das lojas do McDonald’s no centro de São Paulo. No Brasil há quase um ano, o jovem afirma ter pensado em ficar na América do Sul até o líder do Boko Haram ser encontrado pelas autoridades, mas que adquiriu “alma brasileira” e agora quer permanecer no País.

“A sensação de poder sair na rua sem o medo de ser atingido por uma bomba é indescritível. Aqui eu sou livre”, explica.

Ex-morador de Enugu, cuja população é de ao menos 688.862 habitantes, Ugw diz ter decidido deixar o país em junho de 2014 após a polícia ter prendido 21 suspeitos de integrarem o grupo terrorista. De acordo com Ugw, o predomínio de ataques dos militantes em várias regiões do país como Chibok, onde mais de 200 estudantes foram raptadas no dia 14 de abril do ano passado, mostra a ineficácia do governo do ex-presidente Goodluck Jonathan em conter o avanço dos extremistas.  

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“Não vi um trabalho sério e efetivo do governo para acabar com eles [militantes]. Quem sabe agora as coisas melhorem”, pondera sobre o novo presidente do país, o muçulmano Muhammadu Buhari.

O nigeriano Kennith Ugw, de 28 anos, chegou ao Brasil em 2014 e afirma que quer permanecer no País

O nigeriano Kennith Ugw, de 28 anos, chegou ao Brasil em 2014 e afirma que quer permanecer no País

Foto: Reprodução/Facebook

Kennith Ugw atualmente trabalha em uma rede de fast food no centro de SP; na Nigéria ele era professor de inglês

Kennith Ugw atualmente trabalha em uma rede de fast food no centro de SP; na Nigéria ele era professor de inglês

Foto: Reprodução/Facebook

Boko Haram envia vídeo sobre as mais de 200 estudantes raptadas na Nigéria (Arquivo)

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Foto: Reprodução/Youtube

Adolescentes nigerianas foram sequestradas há seis meses (17/10/2014)

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Foto: Reuters

Rachel Daniel, 35, segura foto da filha, Rose Daniel, 17, com o filho ao seu lado, Bukar, 7, na casa da família em Maiduguri, Nigéria (maio/2014)

Rachel Daniel, 35, segura foto da filha, Rose Daniel, 17, com o filho ao seu lado, Bukar, 7, na casa da família em Maiduguri, Nigéria (maio/2014)

Foto: Reuters

Aluna de escola Sul-africana exibe foto de jovem sequestrada em Chibok, Nigéria, durante manifestação na Cidade do Cabo, África do Sul (16/05/2014)

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Foto: AP

Exército recuperou armas em confronto anterior mas perdeu o controle de Baga (14/01)

Exército recuperou armas em confronto anterior mas perdeu o controle de Baga (14/01)

Foto: AP

Foram uma série de atentados suicidas em estação de ônibus em Kano, Nigéria (24/02)

Foram uma série de atentados suicidas em estação de ônibus em Kano, Nigéria (24/02)

Foto: AP Photo/Sani Maikatanga

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Depois de desembarcar em São Paulo em julho de 2014, a nigeriana Nkechinyere foi encaminhada para o Centro de Acolhida para Refugiados mantido pela Caritas Arquidiocesana de São Paulo (CASP), organização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que atua junto ao Ministério da Justiça e ao Acnur. Já Ugw se instalou em um dos albergues da rede de atendimento do SMADS, Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo.   

Cristão, o jovem nigeriano afirma estar sempre preocupado com a situação dos pais e irmãos, e por isso telefona diariamente para a família. Mas acredita que eles não deixariam a Nigéria. “Meus pais não se adaptariam e meus irmãos não viveriam longe deles. Vou ter de conviver com isso”, diz. Nkechinyere Johnatan compartilha da opinião do compatriota. ”Meu lar é o Brasil. Não quero mais sair daqui”. 

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Questão social

Além do terrorismo, o presidente Muhammadu Buhari, que tomou posse no dia 1º de abril, também precisa superar diversos problemas socioeconômicos. Embora seja o maior produtor de petróleo da África, por exemplo, o país tem mais da metade de sua população vivendo na pobreza. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, grande parte do apoio recebido por Buhari veio do norte, especialmente do nordeste, onde o Boko Haram, que visa a conquistar um califado islâmico, deixou ao menos 15 mil mortos desde 2009. 

Durante a abertura da 23ª sessão especial do Conselho de Direitos Humanos realizado em Genebra, Suíça, no início deste mês, Zeid Ra’ad Al Hussein, chefe dos Direitos Humanos das Nações Unidas, explicou que “quanto mais marginalizadas e desesperadas as pessoas estão, maiores as chances de elas entrarem em movimentos radicais e violentos”.   

Entenda o Boko Haram

O grupo radical islâmico nigeriano Boko Haram - que tem causado estragos no país mais populoso da África por meio de uma onda de atentados, assassinatos e sequestross –está lutando para derrubar o governo e criar um Estado islâmico. As informações são da BBC UK.

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Influenciados pela frase “Qualquer um que não é governado pelo que Deus revelou está entre os transgressores”, do Corão (livro sagrado do Islã), os militantes promoveram uma nova versão para “haram”, que signfica proibido e inclui qualquer atividade política ou social influenciada pela cultura do ocidente. Isso inclui eleições populares, vestir camisas e calças ou receber “educação mundana”.

Com o nome oficial de “Jama’atu Ahlis Sunna wal-Jihad Lidda’awati” (“pessoas comprometidas com a propagação de ensinamentos do Profeta e Jihad”, em tradução livre), Boko Haram significa “a educação ocidental é proibida”. “Boko” designa “falso”, mas passou a ser usado também para falar da educação ocidental, enquanto “haram” é o mesmo que “proibição”. 

O grupo também tem protagonizado ataques ainda mais audaciosos no norte e no centro da Nigéria, incluindo bombardeios em igrejas, terminais de ônibus, bares, quartéis militares e até mesmo policiais e funcionários da sede da ONU na capital da Nigéria, Abuja.




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