Martin, guitarrista da Pitty, lança sobre seu primeiro disco solo

Publicado por iRadio em Musica

Publicado em 02 de abril, 2015 | Nenhum Comentário

O texto abaixo foi retirado em sua íntegra do site Cifra Club

Nascido em Salvador, o virtuoso guitarrista Martin Mendonça já é figura conhecida do rock nacional. Há mais de dez anos, acompanha a banda da roqueira Pitty, com quem lançou também o projeto folk Agridoce. Depois de navegar por outros projetos paralelos, incluindo o disco “Dezenove Vezes Amor”, em parceria com o baterista Duda Machado, Martin acaba de lançar seu primeiro disco solo com sua assinatura. O álbum “Quando um Não Quer” reúne composições do guitarrista em nove faixas, lançadas em formato digital no último mês de março. Em um bate-papo com o Cifra Club, o músico falou sobre a sua experiência com o projeto solo, da gravação do disco e de suas parceiras. Confira:

Você é um músico que já trabalhou com muita gente e em diferentes projetos. Com a Pitty na banda ou no Agridoce, na dupla Martin e Eduardo e por aí vai. Como você decidiu que era a hora de lançar um disco apenas do Martin?

Martin: Na real, eu não tinha feito isso antes por uma questão de insegurança. O próprio disco “Dezenove Vezes Amor”, do Martin e Eduardo, eu deveria ter lançado ele assinando sozinho. Mas na época eu estava super inseguro, não queria assumir esse B.O de lançar um disco solo, de botar meu nome. Então a gente brigou muito, eu e o Duda (Machado, baterista da Pitty), na época, porque ele não queria que tivesse um nome de projeto ou nome de banda. Ele queria que fosse só um disco meu mesmo. Só que por conta dessa insegurança a gente resolveu assinar com esse nome bonito que a gente colocou, “Martin e Eduardo”. (risos) Mas a real é essa, não foi que eu senti um chamado. Eu só me senti mais seguro agora. Aconteceu também de, quando fui produzir esse disco, a gente tinha recém entrado de férias com o Agridoce e eu estava em um momento um pouco “eu e eu mesmo”. Foi só uma questão de circunstância e de eu perder um pouco esse medo e deixar a insegurança de lado.

Confira um pouco do trabalho da dupla Martin e Eduardo, com o vídeo de “Dezenove Vezes Amor”:

Qual é a principal diferença em trabalhar sozinho e em um projeto em grupo, como a Pitty ou Agridoce? Você sempre teve liberdade para compor e decidir durante o processo de criação das canções na Pitty, por exemplo?

Martin: A principal diferença eu acho que é você assumir a parada sozinho. Tipo, desde o operacional, se tem uma data de gravação, uma data de ensaio, você tem fazer isso tudo sozinho. Até por exemplo agora, eu estou fazendo toda essa parte de entrevistas, divulgação… toda parte de burocracia. De resto, na parte de composição eu sempre tive muita liberdade para compor e a parte de execução também não foi muito diferente. É engraçado, que no disco “Dezenove Vezes Amor”, que apesar de ser um projeto só meu e do Duda, ele acabou ficando com uma cara de disco de banda e a gente acabou gravando tudo. E esse disco que eu fiz sozinho teve muito mais disso, eu acabei chamando muita gente para participar. Então na hora de executar, eu fiz questão de dar muita liberdade para todo mundo que participou. No sentido de que eu produzi esse disco sozinho, o outro eu produzi junto com o Duda, mas eu limitei o espectro da minha ação enquanto produtor. Por exemplo, na parte de arranjos, eu deixei muito na mão de quem estava fazendo. Não tive muitos momentos de: “toque essa parte assim, ou toque essa parte assado”. Foi muito livre e era uma coisa que eu queria mesmo no disco. Não queria que ele ficasse muito engessado, com uma cara só, eu queria que ele fosse mais para os lugares onde as músicas pedissem que elas fossem.

Teve algum diferencial que você acrescentou no disco para ficar mais com a sua cara e menos semelhante com seus outros projetos?

Martin: Eu acho que foi justamente essa coisa de ter muita gente participando. Boa parte do repertório eu tocava ao vivo nos shows, e eu não queria fazer um disco tão ensaiado, eu queria fazer um disco um pouco mais livre. Eu estava com uma obsessão na época que era a seguinte: tem um momento, quando você aprende a tocar uma música, que é bem breve, mas é o momento em que você já aprendeu a tocar essa música, mas ela ainda não ficou no automático com você. Então tem dois ou três takes, que são exatamente nesse momento, que você já assimilou mas você ainda não está tocando super relaxado. Eu queria gravar nesse disco esses takes. Então como é que eu ia fazer isso com um repertório que eu já tocava com a banda nos shows há anos? A saída que eu encontrei para isso foi substituir algumas peças chaves. A primeira que eu encontrei foi o baterista. Na maior parte eu só toquei com bateristas que eu nunca tinha tocado antes. A gente nunca tinha feito som e eles nunca tinham visto essas músicas. Então eu apresentava essas músicas para eles, eles devolviam com a leitura deles, baseada no repertório e nas influências que eles tinham. E o resto da banda, eu, o Guilherme (Almeida, baixo) e o Guri (Assis, guitarra), acabava tendo que se adaptar ao que esse baterista devolvia para a gente. Então eu queria que esse disco tivesse mais outras caras do que a minha, foi assim convidando esse monte de gente que a gente acabou tocando de uma maneira diferente.

Ouça “Outra História”, primeiro single do disco:

E como foi o processo de gravação com todos esses convidados, como Lira, Pitty, Chuck Hipólito, entre outros. Como foi o processo de gravação e produção com esse pessoal?

Martin: Foi uma loucura mas foi uma delícia. Eu acho que a é melhor recordação que eu tenho. E eu acho que o melhor fruto desse disco foram esses momentos. Eu gravei ele todo instrumental e algumas vozes, duas ou três, no Costella, o estúdio do Chuck, em 12 dias, em dezembro de 2012. A gente começou a gravar achando que ia sair com o disco pronto. Só que pintou um monte de música durante, essa coisa de orquestrar, a quantidade de participações especiais consumiu bastante tempo. E quando passaram esses 12 dias eu tinha todas as bases e três vozes gravadas. Aí entrou pré-produção, pré-gravação e ensaios para a turnê do “Setevidas” (álbum da Pitty, lançado em junho de 2014). E eu só acabei voltando a trabalhar nesse disco no meio do ano passado. E eu tive que mudar de estúdio, porque o Costella estava de férias na época e eu mudei para o Doze Dólares, um estúdio de São Paulo, do Mauro Motoki, que é o guitarrista do Ludov, e do Fábio (Pinczowski), que é um guitarrista e compositor de São Paulo também. Esse primeiro período no Costella foi demais, eu escolhi ele por ele ter essa característica garageira que eu queria. E o método de trabalhar do Chuck também tem uma coisa despojada e uma coisa espontânea que eu queria muito para gravar as bases. Ainda mais nesse clima de chamar um cara que nunca ouviu a música e falar: “bicho, faz agora e vamos ver o que que acontece”. Então foi massa, foi mágico. Eu considero o Costella um estúdio muito mágico, ele é um estúdio feito literalmente em uma garagem, e sem aquele super tratamento acústico, ele é super heterodoxo tudo nele é feito do jeito que dá para ser, não do jeito que tem que ser. Eu acho que isso dá para se ouvir nas bases, acho que funcionou pra caramba, foi um caos harmônico que ficou demais. E a segunda parte, que foram as vozes que eu fiz no Doze Dólares, foi um presente para mim. Foi super sem querer, foi muito por conta do Costella estar reformando e eu fiquei meio orfão de estúdio e o Mauro falou: “vem aqui, vamos fazer juntos”. Eu fui e tive uma grande sorte.

Como você se preparou para se alternar entre os riffs e as cordas vocais?

Martin: Não me preparei. (risos) O Mauro me preparou. Eu não sou cantor, talvez eu possa me tornar um cantor, de tanto que eu estou cantando, mas eu não sou ainda e gravar voz para mim é sempre muito sofrido. É um processo doloroso, que demanda tempo, e eu sou inseguro. Mas aconteceu do Mauro, que trabalhou comigo no Doze Dólares, ser coach de voz, eu nem sabia que ele fazia isso e eu conheço ele há anos. Ele viaja para fora para ser coach, para ensinar o pessoal a gravar voz. Então foi ótimo, porque durou muito menos tempo que eu esperava. Em um clima que foi muito mais divertido e relaxado e rendeu um resultado muito mais legal. Esse disco é a gravação minha cantando que eu consigo escutar hoje sem constrangimento. Eu não tenho um treinamento. Eu já fiz umas aulas assim, meio mais ou menos, com a Pitty. Ela me ajuda muito, inclusive. Sempre que eu componho alguma coisa, ela sempre me enche o ouvido, fala “canta assim, canta assado”. Mas quem me preparou mesmo foi o Mauro, foi assim que a coisa rolou.

Quais foram suas principais inspirações para seu primeiro trabalho solo?

Martin: Eu acabo ficando sempre em uma temática da cabeça pra dentro, não consigo pensar muito no mundo, nas coisas que estão acontecendo na hora de escrever. Eu acabo escrevendo muito sobre sentimento, eu tenho uma certa obsessão com relacionamentos. O próprio “Quando Um Não Quer”, é isso. Esse nome é como de um personagem que está aí ao longo desse disco, meio desencontrado, meio platônico às vezes, meio abandonado, pensando em alguma coisa que já aconteceu. Eu fico muito nisso, eu não tenho muito controle. Escrever música para mim sempre foi uma coisa mais natural, é uma coisa que eu consigo exercer de maneira mais controlada. Até como aconteceu no “Setevidas”, que eu nunca tinha feito e eu achava que nunca iria fazer, mas foi super fácil, que é receber uma letra e fazer uma música em cima, que foi “Boca Aberta”. Foi em 15 minutos, é muito natural. Já escrever letras, ainda é um animal bem selvagem. Mas eu tento domar, domesticar ele. Então eu ainda fico muito mais a mercê dele do que ele a minha mercê. Então conforme as coisas vão saindo eu vou me adaptando. Minha inspiração tem é muito isso, pego emprestado coisas que aconteceram. Não por isso é um disco biográfico, eu pego emprestado histórias de outras pessoas, mas é basicamente coisas que aconteceram com as pessoas.

Veja o vídeo de “Plano Sequência”, produzido pelo Martin:

Qual sua opinião sobre o cenário do rock hoje no Brasil? Como é para um guitarrista como você hoje divulgar seu trabalho solo?

Martin: Para falar a verdade, eu acho que está muito bom. Eu acho que a gente está em um momento de retomada. A gente esteve até o ano passado em um período de maus lençóis, tanto o underground quanto o mainstream. Eu acho que o underground já deu mostras dessa retomada, a gente está com um monte de banda legal, tocando pelo mundo inteiro. Você vê o Boogarins, o Hellbenders, o Far From Alaska, você vê que a cena independente está fervilhando de bandas, que estão conseguindo fazer um certo barulho dentro e fora do Brasil. E eu acredito que esse é um processo a médio e longo prazo que a gente está só começando. Eu acho que isso ainda não se refletiu ainda no mainstream, apesar de eu estar em uma posição peculiar para falar disso. Porque apesar de eu ouvir muitas críticas de dentro e fora, do pessoal dentro das bandas de rock falando que não está dando para fazer shows, que o mercado não está bom. E fora, do pessoal falando que no mainstream não acontece nada, que não tem mais nada de interessante. Mas para a gente, a agenda está incrível, um show sold out atrás do outro, muita gente curtindo muito o trampo. Eu acho que é uma questão de tempo só. Isso acontece sempre, o underground explode de criatividade, vários grupos costumam ser absorvidos pelo mainstream, ou eles próprios furam essa barreira e chegam lá, e a coisa vai. E eu olho com otimismo. Ainda não está legal, não podemos dizer que está bom, para mim está muito bom e acho que vai ficar bom também para muita gente.

E a internet acaba influenciando muito o pessoal a conhecer o que não está no mainstream…

Martin: Eu por exemplo não lancei meu disco de forma física. Eu pretendo lançar ele de forma física, estou negociando para. Mas por enquanto não, ele está todo aí, só na rede. Foi massa. Eu consegui, lançando ele de forma eficaz digitalmente, que foi pela Deck, e eles fizeram um ótimo trabalho. E o que eu percebi desse disco comparando com o “Dezenove Vezes Amor”, foi que um disco lançado de forma eficaz digitalmente tem funcionado, tem reverberado muito mais do que o físico lançado de forma não tão eficaz.

Você tem planos de fazer shows com o disco? Alguma cidade a agendada?

Martin: Show elétrico mesmo, não tenho datas para fazer ainda. Que é uma logística maior, e a gente está no olho do furacão da turnê da Pitty. Então, eu vou ter uma apresentação no dia 14 de abril no Show Livre, no programa do Clemente, que tem um canal no YouTube, e eu estou fazendo apresentações acústicas, com o Guilherme, sempre tocando violão comigo, e sempre um ou dois membros aleatórios. A gente tocou esses dias em uma praça, a gente fez um evento no Facebook, nosso backline eram dois banquinhos e um cooler cheio de cerveja. A gente sentou na praça, fez um som e foi alto astral. O Dieguito (Reis), que é baterista do Vivendo do Ócio, tocou percussão com a gente. Um louco que a gente conheceu na hora, tocou escaleta com a gente. E essa foi a banda do dia. E agora eu vou fazer apresentações esporádicas nesse formato acústico. E acredito que eu tenha algumas possibilidades para abril para fazer esse show elétrico em São Paulo, mas nada marcado. Por enquanto vou fazendo esse show acústico e tentando achar uma brecha.

Como ficam seus trabalhos com a Pitty? Como você balanceia a divulgação do seu disco com as atividades com a Pitty?

Martin: Não chega a constituir problema, porque como o trampo da Pitty é a Pitty, a parte fora do palco é só ela quem faz. Semana passada ela passou a semana inteira trabalhando, essa semana ela vai passar a semana inteira trabalhando, e não são trabalhos onde a gente atua. Então não apresenta muito problema. De resto, o que pode acontecer não vai acontecer. Porque a banda dela é o meu projeto principal. Esse, apesar de ser um disco que leva o meu nome, é um projeto paralelo. É um lance para eu fazer nas horas vagas. E também não tem essa demanda, que chega ao ponto de me atrapalhar.

Para finalizar, envie um recado para a galera do Cifra Club, que acompanha seus trabalhos com a Pitty e agora com seu disco.

Martin: Eu amo isso aí. Eu nunca tive um aprendizado formal de guitarra e violão. O mais próximo que eu tive disso foi quando eu era moleque e eu fazia coleção de revistinha de cifras, que é o equivalente ao que é o Cifra Club hoje, porque no meu tempo não tinha internet, não tinha nada, e era isso aí. E eu acho demais, se joguem, não deem ouvidos a ninguém que fica falando que tem que fazer desse jeito ou do outro jeito não. Você tem que fazer do jeito que é mais prazeroso para você. Para mim foi assim, na época funcionou fazendo do jeito que era mais legal. E o mais legal era pegar as cifras e “descer a mão”: toquem.

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